GALERAS CARIOCAS: NOVAS FORMAS DE IDENTIFICAÇÃO

           

Rôssi Alves Gonçalves – UFRJ

 

 

A cidade do Rio de Janeiro já foi chamada de Cidade Partida, pelo jornalista e escritor Zuenir Ventura. O escritor, ao usar tal caracterização referia-se à segregação social – zona sul e zona norte – que, principalmente, depois dos famosos arrastões nas praias, durante os anos de 92 e 93, parecia concretizar-se. Tratava-se, naquela época, de haver um “Rio solar”, representado pela zona sul, e um “Rio noir”, representado pela zona norte, onde havia massacres, crianças assassinadas, descaso e miséria.

Fim da década das mais violentas da história da cidade, o Rio de Janeiro, ainda, parece constantemente buscar e renovar seus meios de partir a cidade, mantendo bem longe, se possível, a cidade “noir” da cidade solar. Invariavelmente, após confusão nas praias, as vozes que pregam o rompimento das duas cidades elevam-se. E, mais uma vez, chama-se a polícia para proteger os bem-nascidos contra os bárbaros suburbanos. E mais uma vez a garotada de cor negra, que anda só em galeras e curte bailes funks constitui-se naquilo que Louis Chevalier denominou como classes perigosas.

Tudo se inicia quando meninos que só andam em numerosos grupos transferem para as praias e ruas da cidade o comportamento hiper-ativo típico dos bailes: correm, gritam, pulam. O morador regrado da zona sul tem dificuldades em compreender que esta é mais uma forma extravagante de comunicação entre as galeras e, então, chama a polícia, exige providências, o segurança dá tiros para o alto e está formado o “arrastão”.

É certo, no entanto, que alguns membros de galeras têm um histórico de envolvimento com pequenos furtos, roubos, selvageria. Mas, a impressão que fica a cerca dessas situações de conflitos entre a zona sul e a zona norte é de que, a princípio, as galeras têm por objetivo primeiro, promover o terror na cidade, roubar, matar. Tese da qual a mídia parece compartilhar, como pode ser observado nas reportagens sobre incidentes na praia.

Essa divisão da cidade, no entanto, já está consagrada. A reorganização da qual pretendo tratar aqui é uma segregação que nasce no interior do movimento funk, dentro das galeras marginalizadas pela cidade solar.

Quando interrogados sobre a origem da divisão, nenhum funkeiro ou organizador de baile sabe responder. Mas, afirmam que, por volta de 95/96, o baile já estava dividido em lados. Todavia, há um aprimoramento contínuo entre as galeras e mesmo na organização do baile.

O movimento funk está dividido em dois lados: A e B. Há, dentro do baile e da cidade, espaços onde só o lado A pode circular e espaços só para o lado B. Como esta divisão rompe as fronteiras dos bailes e toma conta de outros espaços, como as praias, é pertinente afirmar que há na cidade do Rio de Janeiro dois lotes.

As praias se dividem, desta forma: do Leme até o posto 3, é o lado B que ocupa; os postos 4, 5, 6 e 7 pertencem ao lado A; os postos 8 e 9 são neutros – os funkeiros dizem não gostar deste trecho, o que pode explicar o porquê de ser este o trecho mais badalado pelos mauricinhos e patricinhas; o posto 10 até o fim do Leblon, é do lado B, assim, como o Pepino. Na Barra da Tijuca, a divisão é mais radical: do Píer até o posto 4 é o lado A que domina; os postos 5, 6,e 7 são neutros, porque não são servidos de transporte; A Alvorada é lado A. Depois, na reserva, não há ônibus, então, ninguém curte. O Recreio, todo é do lado B.

Segundo alguns funkeiros, um integrante lado A pode freqüentar a praia do lado B e vice-versa, mas um líder de galera, em entrevista a um grande periódico carioca, afirmou: os funkeiros que vêm de fora e não sabem, entram no lote errado e acabam apanhando.

 Alguns funkeiros acreditam que os lados tenham surgido com a rivalidade que acontecia durante a formação dos trenzinhos – um funkeiro agarrava-se à cintura de outro à frente e assim sucessivamente. Dançavam, circulando pelo salão e, vez por outra, esbarravam em outros trenzinhos, o que provocava confusão. Daí, teria surgido a delimitação de espaços para cada grupo. Mas essa versão não é consensual. O que prevalece é a definição de que foi acontecendo: ninguém sabe como.

Assim, como os participantes não identificam o início da divisão nos bailes, também não dão conta de explicar, exatamente, como as galeras se definem por lado A ou B.

O que se observa, a partir de algumas esforçadas tentativas de explicação é que, muitas vezes, há um vago tipo de identificação com as galeras que compõem o lado tal, pelo qual, a nova galera vai optar. Identificação que parece se dar pelo consumo, considerando a freqüência com que enaltecem grifes famosas, cartão de crédito em suas músicas.

Se, parece à galera que o lado A é mais interessante, mais fashion, como eles gostam de se definir, então opta-se por ser lado A. O mesmo pode acontecer se o lado B parecer o mais forte, o mais animado. No entanto, a julgar pela própria incapacidade de justificar as escolhas, não parece haver rigor algum ao ingressar em um dos lados.

Existe, no entanto, uma versão negada pelas galeras, mas que merece ser investigada. Segundo um produtor de bailes, os lados A e B são decididos de acordo com as facções criminosas que dominam as favelas. Se uma comunidade é dominada pela facção denominada Terceiro Comando, logo, a galera daquela área, tem que pertencer ao lado A; da mesma forma que, se uma galera pertence à favela sob domínio da facção Comando Vermelho, conseqüentemente, pertencerá ao lado B.

No entanto, esta relação íntima com o tráfico de drogas é contestada pelas galeras que negam qualquer envolvimento com as facções criminosas. Ainda em entrevista a um jornal carioca, um funkeiro afirma: Não importa muito se você mora numa comunidade ligada ao Comando Vermelho, ao Comando Vermelho Jovem, numa comunidade do Terceiro Comando ou dos Amigos dos Amigos. É o A inimigo do B e vice-versa.

Tomando-se a versão de produtor como a verdadeira, um problema se colocaria de início: como, então, galeras pertencentes à mesma comunidade, normalmente, lideradas pela mesma facção criminosa, optariam por lados diferentes, como ocorre, com o bairro de Anchieta, que abriga duas galeras – Beco de Anchieta, lado B e Final Feliz, lado A?

Outra questão intrigante é que, tomando como correta essa hipótese, em qual lado se incluiriam as comunidades dominadas pela ADA (Amigos dos amigos), a terceira via do crime, no Rio de Janeiro? Talvez, tivesse que ser criado o lado C das galeras, pois essa facção se coloca como independente das outras duas mais antigas.

Parece que esta questão de definição por lados A ou B não pode, por hora, ser elucidada. Mas, a formação das galeras apresenta outros dados bastante instigantes.

De início, a questão maior que se impõe a esse estudo é a que diz respeito à formação de comunidades (reunião de galeras), não mais pela vizinhança territorial, pela proximidade, o que seria mais coerente. As galeras se formam por uma lógica nova, sem, necessariamente, o vínculo com a região onde os membros vivem e convivem.

Formam o que Benedict Anderson (1989) denomina comunidades imaginadas. É uma comunidade, porque existe o sentimento de comunhão, de solidariedade. E é imaginada porque, conforme observa Anderson (p.14), nem mesmo os membros das menores nações jamais conhecerão a maioria de seus compatriotas, nem os encontrarão, nem sequer ouvirão falar deles, embora na mente de cada um esteja viva a imagem de sua comunhão.

Os lados A e B são as duas comunidades imaginadas do funk, porque contam com um princípio aglutinador que foge ao geográfico, mas é construído imaginariamente, uma vez que se formam sem nenhum vínculo concreto que estaria presente, por exemplo, na união de comunidades próximas, com a mesma história e experiência.

As comunidades A e B constroem uma história depois de formadas. História que vai ser escrita nos bailes, a cada briga, a cada aniversário, a cada problema. Mas sem, necessariamente, a cumplicidade no percurso constante da história, porque não têm a dimensão do tamanho da comunidade e porque nem todas as galeras de um mesmo lado freqüentam o mesmo baile, sempre. Logo, o conhecimento que uma galera tem da outra, passa, freqüentemente, pela imaginação, não é real.

Para melhor compreender a complexidade dessa formação, é necessário um breve relato de como os lados A e B se organizam no baile. Os bailes mais concorridos são aqueles conhecidos como de embate ou de corredor e que se realizam em área neutra, ou seja, em algum lugar distante das comunidades que possuem galeras freqüentadoras de baile (o oposto do baile de comunidade que é calmo, sem embate e onde há envolvimento da galera local).

Nesses bailes, há áreas diferentes para cada lado. De um lado do salão, fica o lado A, com banheiros, bar e enfermaria que só podem ser freqüentados por galeras integrantes do lado A. A mesma formação vale para o lado B. Dividindo os dois lados, há uma fileira de seguranças – média de 50 por baile – que mantêm um corredor, com mais ou menos dois metros de distância entre os lados.

Como a imensa maioria dos freqüentadores vai ao baile, apenas para dançar, namorar, enfim, se divertir, há, apenas duas fileiras de meninos (mais ou menos cem meninos, ao todo, um número ínfimo, sabendo-se que, num só baile, há mais ou menos 3000 jovens) , uma de cada lado (A e B), que realizam uma coreografia original: eles dançam dando chutes e pontapés nos integrantes do lado oposto. Aos seguranças, cabe impedir que a coreografia evolua para passos mais violentos. Quando isto ocorre, os seguranças intervêm com mais rigor.

Mas o que predomina neste corredor são os golpes livres porque, segundo um segurança do Country Clube da Praça Seca, um dos bailes mais concorridos, a função dos seguranças não é impedir a pancadaria, porque é a forma “de os meninos se divertirem”, mas evitar que os golpes sejam mais perigosos e, sobretudo, que haja seqüestro: um integrante é puxado para o lado oposto e surrado até desfalecer. Segundo o segurança, eles só param de bater quando o seqüestrado já está praticamente morto. Portanto, este é o maior temor dos seguranças, que, de modo geral, se divertem separando os meninos.

É inquietante essa modalidade de dança, porque antes de a pancadaria ter início, os guerreiros se cumprimentam como parte do ritual e, quando desferem um golpe mais violento, às vezes pedem desculpas ao inimigo. É a encenação da violência, com hora certa para começar e para terminar.

Assim, se justifica a rivalidade incomensurável que se estabelece entre os lados A e B, mesmo quando de uma mesma comunidade. É o caso de Cesarão e Antares, de Campo Grande, galeras de conjuntos habitacionais próximos um do outro e que são inimigas, já que Cesarão é lado B e Antares é lado A.

Como explicar, senão pelo jogo, que galeras que habitam o mesmo bairro, gritem nos bailes pelo nome do bairro em comum e, ao mesmo tempo, sejam inimigas? Ou ainda, como uma galera lado B, como o Vidigal, forma com uma galera lado B de Cascadura, distante uns 20 kms de sua área e alimenta ódio mortal pela galera do Pavãozinho, lado A, comunidade que dista, apenas, uns 8 kms do Vidigal?

Para as galeras, os laços que se sustentam apenas na coabitação do território já não têm valor. O bairro parece estar fragmentado. Sendo assim, interessa defender o Beco de Anchieta – favela do bairro de Anchieta – e não defender o bairro, na sua totalidade. A algumas ruas adiante, existe outra favela, Final Feliz, que terá a sua área defendida por outra galera. Assim, também, o território de Campo Grande é repartido e defendido por galeras, como, Cesarão, Antares, Pombal de Santa Margarida e Campo Grande. Entretanto, não se pode perder de vista que, se o bairro na sua totalidade já não tem representatividade para as galeras, ainda exerce enorme poder no imaginário da mesma, ainda que sob a forma de um miniterritório. Haja vista, a forma básica de identificação dos funkeiros que têm, o nome da comunidade, como uma co-extensão de seu nome. É a Ana Paula do Beco, o Fábio de Guadalupe, o Marcos de Heliópolis, a Célia da CDD.

Outro sinal deste evidente apego à região está nos gritos de galeras que consistem, na maioria dos casos, em enaltecer a comunidade, gritando pelo nome desta – às vezes, a montagem toda tem como letra unicamente o nome do bairro. Segundo Geléia, MC de Beco de Anchieta, a montagem é como um hino para a comunidade, o que, imediatamente, nos remete ao conceito argüído por Anderson acerca da unissonância proporcionada pelo hino nacional (cf. Anderson, 1989, p.158.) Os nomes das montagens refletem a necessidade que as galeras têm de afirmar a origem: Fubazão/Areia Branca; Zona Sul/Pechincha; Guadalupe/Muquiço; Iriri/Sapê/Outeiro etc.

Por isso, no programa de rádio, normalmente, o ouvinte-participante pede, ao vivo, que o DJ toque a montagem da comunidade dele. No baile, cantar a montagem é a celebração maior para as galeras.

A relação estabelecida dos jovens funkeiros com suas comunidades, longe de representar aquilo que Canclini denominou desterritorialização, ou seja, a perda da relação “natural” da cultura com os territórios geográficos e sociais (Canclini, 1998, p. 309), informa uma constante renovação da referencialidade que o bairro fragmentado registra. Parece pertinente falar em miniterritorialização.

Para suprir a fragmentação, normalmente, as galeras quando aniversariam, para impressionar e chegar de bondão, no baile, contam com outras galeras do mesmo lado que, chegam juntas, no baile e, lá, gritam apenas o nome da galera aniversariante. Isso, para os funkeiros dá moral para a galera que festeja, impõe respeito. Forma-se, assim, uma relação de compadrio, já que depois as galeras homenageadas têm que retribuir a gentileza.

O que se ganha nessa disputa por lotar o clube é o nome da comunidade pronunciado por centenas, milhares de pessoas. É o orgulho maior para o funkeiro que pode, nos dias seguintes se valorizar.

A galera da CDD, lado A, parece a inimiga número 1 das galeras do lado B. Ninguém afirma que é essa a maior galera, mas ganhar da CDD dá um orgulho especial para a comunidade. Talvez, essa rivalidade se dê em virtude de ser esta galera bem mais violenta que as demais e de ter suas idas ao baile, normalmente marcadas por conflitos. São os funcionários do Country Clube da Praça Seca que dizem: A CDD, por ser próxima ao clube, acha que manda aqui. Já desce do ônibus batendo.(segurança de palco da Furacão 2000). Ou ainda: A galera da Cidade de Deus, quando não tem ônibus, seqüestra os motoristas. Eles dão um dinheiro pro motorista do 761 e lotam o ônibus (segurança feminina).A melhor montagem, a maior galera, o maior bolo, a melhor festa, a expulsão do lado oposto, o que impulsiona toda essa mobilização é o desejo de reconhecimento do seu minibairro.

Hoje, as galeras funks, pós-CPI do funk, instaurada no segundo semestre de 1999, passam por mais um período de reorganização e privação. Quase não há clubes, na cidade do Rio de Janeiro, com permissão para bailes. Os bailes de corredor foram proibidos. Para que qualquer baile se realize, é necessária a presença da polícia e autorização prévia.

Nas montagens já não se ouve mais a exaltação dos lados A e B. O tema da hora é sexualizado: dança da popuzuda, potranca. Mas, não há como acreditar que uma organização tão forte quanto aquela tenha se rendido à “ordem”. Deve estar se reestruturando para voltar se exprimindo de modo tão assustador quanto o anterior. Até que, novamente, tentem silenciá-la.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

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CANCLINI, Néstor G. Culturas híbridas. Trad. Ana Regina Lessa e Heloísa Pezza Cintrão. São Paulo. Edusp, 1998.

DA MATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro. Editora Guanabara, 1990.

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VENTURA, Zuenir. Cidade partida. São Paulo. Companhia das Letras, 1994.

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ZALUAR, Alba. Condomínio do diabo. Rio de Janeiro. Editora UFRJ, 1994.